Vitória Alternativa – artigo da Revista Planeta
abril 15, 2010 at 1:38 pm 1 comentário
Tratamentos não-convencionais conquistam pacientes, convertem médicos e convencem a ciência
CARLA GULLO E CILENE PEREIRA
Houve um tempo em que a palavra alternativa remetia a cabelos longos, batas, arroz integral e ervas exóticas. Hoje, para um número cada vez maior de pessoas, o significado mudou. Alternativa representa um outro caminho para se alcançar uma boa qualidade de vida, melhorar a saúde e, muitas vezes, se curar. Agora, quando se comemoram dois séculos da homeopatia, o que se vê em todo o mundo, inclusive no Brasil, é a expansão das chamadas terapias alternativas, um caleidoscópio de técnicas que aos poucos perdem o estigma de excentricidade e se consolidam como uma opção à medicina tradicional. Uma delas – a homeopatia – há seis anos ganhou o status de especialidade médica. Discute-se ainda no Congresso Nacional se a acupuntura seguirá o mesmo caminho. Em muitos casos, a eficácia de algumas dessas práticas chega a superar a majestade da ciência convencional. Talvez por isso, não só a homeopatia e a acupuntura mas os florais de Bach, a cromoterapia e outros métodos fascinam leigos e profissionais de saúde. Mecas da medicina ortodoxa, como o Hospital das Clínicas de São Paulo e a Universidade Federal Paulista, renderam-se à eficiência de algumas delas e as oferecem aos seus pacientes. Empresas também descobriram as suas vantagens e presenteiam seus funcionários com programas que utilizam essas terapias. Até um novo plano de saúde, o Qualis, surgiu no mercado para atender a imensa legião daqueles que procuram o alívio ou a cura de seus males na medicina alternativa. “É uma tendência mundial. Mesmo os médicos estão conciliando as medicinas alternativas e convencionais”, afirma Elizabeth Bueno, uma das proprietárias da Homeopatia Cristiano, uma das maiores farmácias do gênero de São Paulo.
O sucesso dessas práticas não é milagre ou bruxaria. Está ancorado no fato de que as técnicas alternativas têm menos efeitos colaterais, são mais baratas (um remédio homeopático custa, em geral, no máximo R$ 20, enquanto um antibiótico, por exemplo, passa de R$ 30) e, mais do que isso, seus especialistas dão ao paciente uma sensação de conforto e atenção que em geral ele não recebe no corre-corre dos consultórios tradicionais. Em geral, o ambiente silencioso e de luz amena das clínicas alternativas é menos asséptico e transmite tranquilidade. Mas de nada adianta ir a uma sessão de acupuntura ou massagem na expectativa de receber explicações cartesianas para o tratamento. É preciso esquecer o pensamento ocidental e tentar compreender, pelo menos um pouco, a filosofia oriental, na qual está baseada a maioria dessas terapias. O segredo está no equilíbrio energético do organismo. Ao harmonizar essa energia, por meio das agulhas da acupuntura, dos remédios da homeopatia, do toque dos dedos nas massagens, melhora-se a capacidade de reação do corpo no combate às doenças.
Talvez a tradicional medicina chinesa seja a que melhor traduza esse conceito. Essa ciência milenar engloba a acupuntura, medicamentos à base de plantas, animais (casca de cigarra, minhoca e chifre de veado) e minerais como cálcio e enxofre, e também massagens como o shiatsu e o do-in, que reequilibram a energia vital por meio da pressão dos dedos. “Na tradicional medicina chinesa, há uma avaliação energética do paciente. O terapeuta não aplica somente técnicas que visem combater os sintomas. O objetivo é buscar a causa dos problemas”, explica o acupunturista e cirurgião vascular Wu Tow-Kwang, de São Paulo.
Na China, essa é a medicina popular. É o que se pratica no que se poderia chamar de SUS dos chineses. No Brasil, aos poucos os hospitais abrem suas portas para essa tradição e o sucesso é enorme. A Universidade Federal Paulista oferece desde 1992 um serviço de acupuntura aos seus pacientes. A técnica é utilizada para tratar problemas que vão desde dores musculares até enxaqueca, gastrite, reumatismo, alergias e outros males. O paciente quase sempre é encaminhado pelos especialistas do hospital depois do diagnóstico. Em média, são atendidas 2,8 mil pessoas por mês, inclusive crianças. A procura é tanta que, no guichê do serviço, há cartazes informando que não há vagas para as sessões até o ano que vem. No Hospital das Clínicas de São Paulo (HC), a acupuntura é utilizada para amenizar dores crônicas dos pacientes do Instituto de Ortopedia. “O estímulo da agulha faz com que o cérebro libere substâncias, como a endorfina, que atenuam a dor”, explica a fisiatra Satiko Imamura, diretora do serviço de reabilitação do instituto. A dona de casa Luzia Senhorinha dos Santos, 69 anos, é um exemplo de quem descobriu os benefícios das agulhas em hospitais convencionais. Por causa do reumatismo, ela sofria dores intensas em todo o corpo e, cansada de bater na porta da medicina tradicional, só encontrou o alívio na técnica chinesa usada no HC. “A acupuntura mudou minha vida. Não conseguia sequer mexer os braços. Hoje tenho uma rotina normal”, conta.
Para os menos informados, a terapia de acupuntura pode parecer não um alívio divino, mas uma tortura chinesa. Afinal, ninguém gosta de levar agulhadas. No entanto, raramente as espetadas doem. Isso porque elas não são colocadas no corpo a esmo. Para os orientais, o organismo possui linhas de energia, chamadas meridianos, que se relacionam com cada órgão. Ao harmonizar esses canais, alcança-se a cura das doenças. Mas para quem não gosta de agulhas, há outras formas eficientes de estimular os pontos de energia. Uma delas é o bastão de moxa, pequenas bolas de ervas que, ao serem queimadas, aquecem o local e alcançam os meridianos. A atriz Cássia Kiss, 39 anos, está usando a modalidade para tratar problemas que ganhou no joelho depois de excesso de exercício físico. “Melhorei muito”, garante, satisfeita em escapar de uma eventual cirurgia.
Mas se até há pouco tempo era difícil imaginar que centros de pesquisa de medicina ortodoxa abririam espaço para técnicas alternativas, mais impossível ainda era supor que um dia elas chegassem a ambulatórios de empresas. No departamento médico da Du Pont, uma das maiores indústrias do País, funciona há três anos um programa alternativo de saúde implantado nas suas cinco unidades. A empresa oferece a seus funcionários acupuntura, do-in, shiatsu e tai-chi-chuan. Mas é a acupuntura a técnica que faz mais sucesso entre os 600 empregados da unidade de Alphaville, na Grande São Paulo. Até hoje, 250 funcionários se submeteram à terapia. A maior parte das queixas eram enxaquecas, obesidade, problemas no estômago e ginecológicos. A consultora de recursos humanos Cláudia Briganti é uma das que se deram bem com a acupuntura. Aos 33 anos, ela sofria de enxaqueca e era hipersensível à luz. Usou medicamentos fortíssimos que não resolveram seu problema. Encontrou a solução nas agulhas. “Hoje não sinto quase nada”, garante.
Histórias como a de Cláudia de fato surpreendem. E, fascinados por esse mundo ainda pouco conhecido pelos ocidentais, muitos médicos acabaram absolutamente seduzidos e migraram da medicina alopática para a alternativa. Às vezes, à custa do próprio sofrimento. A médica carioca Sonia Rocha Miura formou-se em clínica médica em 1979 pela Faculdade Sul Fluminense, do Rio de Janeiro, e nem sonhava que se tornaria uma homeopata. Mas a doença de sua filha Maira, 15 anos, a levou para esse caminho. Quando tinha três anos, a menina apresentou um quadro reumático grave, com fortes dores nas juntas e na musculatura. Uma doença que poderia ser fatal. Mãe e filha enfrentaram uma romaria exaustiva em consultórios e laboratórios sem sucesso. Com o tempo, Maira deixou de andar e não se sustentava mais em pé. A mãe decidiu, então, tentar a homeopatia e procurou o médico Alfredo Castro, hoje com 89 anos, um dos que mais incentivaram a ampliação da homeopatia no País. Deu certo. A menina se restabeleceu sem ficar com sequela. O drama mudou sua vida. Em 1986, Sonia fez um curso de homeopatia e hoje trabalha em uma clínica especializada. “Esta ciência atua em todas as patologias e respeita o indivíduo como um todo”, afirma a médica.
De fato, a homeopatia apresenta bons resultados em quase todas as doenças e, talvez por isso mesmo, atraia cada vez mais gente: há dez anos, os homeopatas não somavam mil profissionais no País, hoje são cerca de dez mil e 1,4 mil farmácias do gênero. “Ela é bastante usada para doenças crônicas como a asma e a bronquite, males que a medicina clássica não cura”, explica o homeopata e acupunturista José Carlos Sampaio, diretor do Instituto Brasileiro de Estudos Homeopáticos. Compreender a forma com que essa ciência encara a doença não é difícil. Na medicina convencional, o paciente está doente porque tem dor de garganta. Para a homeopatia, uma pessoa tem dor de garganta porque está doente. Sua energia em desequilíbrio se revela nos sintomas, que costumam ser identificados como as doenças tradicionais. Por isso, os remédios procuram promover a harmonização energética do organismo. E sua atuação está baseada no chamado princípio da semelhança: o que pode fazer mal também pode curar, como uma vacina.
A descoberta foi feita no final do século XVIII pelo médico alemão Cristian Frederic Samuel Hahnemann, o pai da homeopatia. O pesquisador surpreendeu-se ao constatar que a quina, um arbusto sul-americano usado no tratamento para a malária, causava os mesmos sintomas da doença – febre intermitente e calafrios – em pessoas sãs. Ou seja, a mesma substância que provoca sintomas também pode curar. Os remédios, que são à base de plantas, animais e minerais, passam por uma diluição e sucussão (agitação), formando o chamado processo de dinamização realizado com o objetivo de potencializar os efeitos. Eles quase sempre são ministrados em apenas uma dose. Muitas vezes, essas técnicas são usadas em parceria com outras. O presidente Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, submete-se periodicamente a sessões de acupuntura e shiatsu com a terapeuta Edna Nishiya, de São Paulo, para aliviar seus problemas de coluna. Na medicina ayurvédica – uma modalidade de origem hindu, segundo a qual a doença advém da ignorância do que seja a vida em harmonia -, mesclam-se dieta equilibrada, respiração correta e exercício físico com a fitoterapia, uma ciência baseada no estudo e aplicação de plantas no combate às doenças. É essa terapia, aliás, que mais atrai a comunidade de baixa renda da cidade-satélite de Planaltina, a 45 quilômetros de Brasília, onde funciona uma Unidade de Saúde Integral no Hospital Regional de Planaltina, ligado ao SUS. Cerca de 100 pessoas, entre pacientes do hospital e membros da comunidade, diariamente vão ao guichê do laboratório de manipulação pegar ervas e receitas de chás caseiros. “Incentivamos a cultura popular. Fornecemos as plantas tanto com indicação de um dos nossos médicos quanto para a receita da vovó”, explica Marcos Freire, coordenador da unidade, que inclui ainda acupuntura, homeopatia e unibiótica, a associação de conhecimentos da medicina oriental e ocidental.
Sem dúvida, grande parte do avanço das terapias alternativas se deve ao gradual fim da trincheira de preconceito que até há alguns anos separava alternativos de um lado e alopatas de outro. Hoje, não só médicos convencionais indicam sessões de acupuntura, por exemplo, como homeopatas são capazes de receitar antibióticos. Na área da pesquisa, a tendência é a mesma. A Central de Medicamentos (Ceme) do Ministério da Saúde distribuirá comprimidos feitos à base de espinheira santa, indicada para males do aparelho digestivo, e de quebra-pedra, que teve sua eficiência comprovada para a eliminação de cálculos renais. Na Universidade Luterana do Brasil, em Canoas, no Rio Grande do Sul, comprovou-se a eficácia da babosa contra a acne juvenil e um novo creme à base de camomila foi lançado no País pelo laboratório Asta Médica contra assaduras. “Na medida em que se comprova a eficácia científica do método, temos o dever de mostrar para a sociedade e os alopatas esses benefícios, sem o menor pudor de incorporá-los”, afirma o presidente do Conselho Federal de Medicina, Waldyr Mesquita. A frase do presidente do órgão máximo dos médicos do País é emblemática e animadora. Indica um caminho pelo qual é possível evitar o charlatanismo e reconhecer como eficazes técnicas que não constam dos manuais da medicina tradicional.
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1.
Sonia | dezembro 1, 2010 às 11:44 pm
Conheci o Dr. Alfredo Castro, era o nosso médico de familia.
Nunca precisei usar antibioticos, a homeopatia curou tudo!
Moro na Europa e nunca mais achei um médico como o Dr. Castro.
Gostaria de entrar em contato com ele. por email ou telefone.